Soalhães é uma
Freguesia do Concelho de Marco de Canaveses com muitas tradições históricas,
sendo também a maior Freguesia do concelho com cerca de 23,4 Kms2.
Situada na margem
direita do rio Douro, estende-se desde a Serra da Aboboreira, que
acompanha em grande extensão, até à ribeira do Juncal. Pela sua
localização, seria fácil de prever um forte povoamento pré-histórico. Os
dados arqueológicos confirmam-no. Entre os lugares de Quintela e
Vinheiros, encontra-se o Castro de São Tiago, perto de duas elevações
cónicas, uma das quais tem no topo uma pequena ermida daquela invocação,
sendo um dos lugares a visitar e de onde se pode admirar uma paisagem
magnífica e passar bons momentos de lazer.
No monte referido
são ainda visíveis alguns troços de três ordens de muralhas, formando o
mesmo núcleo de anéis, e algumas habitações castrejas, das quais restam
apenas várias pedras amontoadas. Do espólio reunido, regista-se um
fragmento de asa de ânfora, pedaços de “Tégula” e um cossoiro.
Mas não fica por
aqui o património arqueológico de Soalhães. Entre muitos dos vestígios
que poderíamos analisar, nos lugares de Miras, Poço, Lavra, Eido, Pinhão
(conforme estudos de João Belmiro da Silva), destacaremos a Gruta das
Curiscadas, no lugar do mesmo nome, que foi alvo de diversas
interpretações por parte da população local. Pensavam ser aquele sítio uma
vala comum, dada a grande quantidade de ossadas ali encontradas, bem como
outros achados pré-históricos, tais como duas facas de Sílex, dois
machados de deorite, e pontas de flechas lascadas e polidas, ( estes
objectos encontram-se guardados no Museu Martins Sarmento em Guimarães) o
que demonstra que povos da época terciária e quaternária já habitavam
esta região, o que atesta claramente a antiguidade de Soalhães. É um
espaço existente sob um penedo arredondado, o «Penedo de Cuba», com cerca
de cinco metros quadrados. Uma gruta natural, ou fenda aproveitada para
tumulação desde os tempos pré históricos, classificado como património
cultural por decreto n.º 147 de 05/01/1951.
Se a arqueologia
comprova o povoamento castrejo de Soalhães, a toponímia atesta a passagem
dos godos por aqui. Assim acontece com o próprio nome da freguesia.
Segundo Joseph Piel, Soalhães é significativo do antropónimo Sunila ou
Soela, nome geográfico abundantemente documentado na Idade Média. O mesmo
sucede com Telhe, cujo genitivo, Telli, é um nome pessoal de origem
germânica. Ou Mirás, patronímico de um antropónimo da mesma origem.
Soalhães encontra-se
documentada a partir de 857, como núcleo da futura freguesia: «Villa de
Suylanes». Do ano de 875, é o primeiro diploma relativo ao seu Mosteiro,
ao que parece - embora haja dúvidas - fundado por Sancho Ortiz.
Naquele, o tal
«humilde et servo Dei Santom presbítero» doa à «baselice sancti Martini
episcopi que est fundada in villa de Suylanes», casais, objectos e
alfaias de culto.
Em meados do século
XI, encontramos novas referências a um Mosteiro que estava então a ser
disputado por elementos da estirpe dos gascos, sem grande sucesso. Foi D.
Sancho II, antes de 1245, que o extinguiu e o converteu em simples Igreja
Paroquial. As próprias Inquirições de 1258 referem-na apenas como tal.
Morgado de Soalhães,
por sua vez, iria ser instituído em Maio de 1304 por D. João Martins,
Bispo de Lisboa. Filho de Gonçalo Gonçalves de Portocarreiro, Arcebispo de
Braga, nomeou para administrador daquele o seu filho Vasco Anes. Um
morgado importantíssimo em rendas e honras, pois tinha um património que
englobava Lisboa, Porto, Coimbra e Viseu.
Por carta de Julho
de 1373, o rei D. Fernando doou a Gonçalo Mendes de Vasconcelos a terra
de Soalhães, concedendo-lhe sobre ela toda a jurisdição. Foi ele, assim o
podemos considerar, o primeiro senhor de Soalhães.
Julgado ou Concelho
de Soalhães já existia no século XIII. Abrangia as seguintes povoações:
Folhada, Fornos, Mesquinhata, Soalhães, Tabuado e Várzea de Ovelha
(Aliviada). O concelho recebeu foral de D. Manuel I, em Lisboa, em 15 de
Julho de 1514. Iria ser extinto em 30 de Novembro de 1852 por motivos
administrativos, ligados à força que então deteve o actual Concelho de
Marco de Canaveses.
Símbolo do extinto
Concelho, é o pelourinho, monumento nacional por decreto n.º 38147 de
05/01/1951 pelo valor histórico e artístico que ostenta. Igual
importância, ou talvez mais, tem a Igreja Matriz, originalmente românica,
monumento nacional por decreto n.º 129 de 29/09/1977, despacho da SEC de
26/03/1990. Apesar dos restauros que sofreu, ainda apresenta algumas
características desse período, como a porta principal, com duas ordens de
colunas de cada lado e três arquivoltas quebradas. Os capitéis estão
decorados com elementos vegetais e são proto-góticos.
Ao lado da fachada,
ergue-se uma robusta torre, medieval mas muito desfigurada. No interior
do templo destacam-se os 91 caixotões do tecto e os azulejos
setecentistas das paredes das naves. O azul dos azulejos e o dourado da
talha tornam este monumento uma obra riquíssima, não pela sua
grandiosidade, mas pelo cuidado dos pormenores. “O tecto da nave é todo
coberto de painéis pintados separados por belas molduras de talha, o mesmo
acontecendo nas paredes da mesma quadra. Tudo o resto é azulejo azul, que
contorna as molduras, as portas de todos os acidentes arquitectónicos”.
(Azularia em Portugal no século XVIII).
Do lado direito de quem entra, ocupando quase totalmente a
parede, emerge um painel alusivo a Moisés e à rocha da qual brotou água
para manter a sede ao povo no deserto: «E o Senhor disse a Moisés: “Passa
diante do povo e toma contigo alguns anciãos de Israel, e toma também em
tua mão a tua vara, com que golpeaste o Nilo, e vai. Eis que eu estarei
diante de ti, lá sobre a rocha de Horeb, golpearás a rocha e dela jorrará
a água para que o povo beba”. E Moisés fez assim na presença dos anciãos
de Israel. E pôs àquele lugar o nome Massa e Meriba» (Ex 17, 5-7 A). O
painel destaca-se pela grandiosidade da sua área e pelo gosto estético
das suas imagens. Apresenta 20x48 azulejos, somente interrompidos por um
púlpito entalhado e por dois nichos: um com imagem representando as
santas mães, outro representando Nossa Senhora do Rosário, colocadas,
ambas em pedestais ornamentados por azulejo de figuras avulsas (restauro
efectuado em 1992).
Do lado esquerdo,
ocupando quase toda a parede, três painéis a evocar passagens bíblicas.
No primeiro, a de Moisés e a serpente de bronze no deserto: «O Senhor
disse a Moisés: “Faz uma serpente de bronze e coloca-a sobre uma haste e
todo aquele que for mordido e olhar para ela ficará curado”» (Num 21,
8-9). No segundo, Jesus e a samaritana sentados junto do poço de Jacob:
«Existia ali um poço de Jacob ... Veio uma mulher samaritana, para tirar
água. Diz-lhe Jesus: “Dá-me de beber”» (Jo 4, 6-8). No terceiro, Jesus
fala aos seus discípulos.
As molduras são de
cabeceiras lisas, separadas por emolduramentos de pilastras e centradas por grinaldas,
seguras por medalhões. (Azulejaria em Portugal no século XVIII).
Ainda deste lado, um
outro painel representa Melquisedec: «E Melquisedec, rei de Salém, trouxe
pão e vinho, pois era sacerdote do Deus Altíssimo e abençoou Abraão
dizendo: “Bendito seja Abraão pelo Deus Altíssimo, Senhor do Céu e da
terra. Bendito seja Deus Altíssimo
que pôs os teus inimigos em tuas mãos.” E Abraão deu-lhe o dízimo de
tudo.» (Gen 14, 18-19).
Na capela lateral, denominada Capela das Almas, do lado
esquerdo, com 22 azulejos de alto, representa-se S. Miguel a salvar as
almas do Purgatório. A moldura apresenta pilastras e medalhões a que os
anjos servem de suporte. No lado direito está representado S. Miguel a
lutar com o diabo, enquanto as almas sobem ao céu.
Na sacristia, por seu turno, existe um conjunto de azulejos
de figura avulsa, com cantos de estrelas e motivos diversos: barcos,
flores, aves, figuras humanas, entre outras representações. E ladeando um
pequeno retábulo de altar, encontram-se dois anjos azuis talvez
provenientes de outro lado. A partir da análise destes azulejos coloca-se
a hipótese do seu autor Policarpo de Oliveira Bernardes, discípulo de
Francisco Ferreira de Araújo e filho de António de Oliveira Bernardes,
mestres da escola de Coimbra. A sua obra é essencialmente constituída por
painéis figurativos de enquadramentos rectilíneos simples, de grande
qualidade quanto à composição e configuração das suas figuras.
É de facto, um
monumento de imprescindível visita.
Actualmente,
Soalhães é a Segunda Freguesia mais populosa do Concelho. Um presente que
bem honra o seu passado.
Soalhães, tem como
limites a nordeste e leste o concelho de Baião, a sul Paredes de
Viadores, a noroeste Tabuado, a poente Manhuncelos, Freixo e Rio de
Galinhas.
Os pontos mais altos desta freguesia
são a Aboboreira com 793 metros de altitude, a Abogalheira com 962 metros
junto ao marco geodésico, a Rua de Eiró com 436 metros.
Esta Freguesia detém bons e
bonitos edifícios, agora grandemente modificados. Um dos solares mais
importantes desta região, situa-se nesta freguesia «a Casa de Quintã». Construído segundo estilo de D. João V, foi acabado no ano de 1742. É o
primeiro edifício do concelho e um dos primeiros de todo o distrito pela
sua grandeza. Arquitectura e magnificência tanto no exterior como no interior.
Está edificado em quadrado com um artístico chafariz no claustro interno.
Soalhães tem como
patrono “ S. Martinho”, Bispo de Tours.
Tem brasão próprio composto por escudo de verde, uma mitra episcopal
de prata, forrada e guarnecida de vermelho e dois ramos de três espigas
de ouro, folhadas do mesmo, tudo em roquete. O próprio conceito de antiga
Vila, é mencionado na coroa mural de quatro torres que por esta razão é
atribuída à Freguesia. Listel branco com a legenda a negro ”SOALHÃES”.