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Serra da Aboboreira

uma serra que continua à espera de protecção...

Publicado em 19-01-07

 

Artigo de opinião por

Nelson Soares, Estudante de Arquitectura Paisagista

 

“Repartida entre os municípios de Amarante, Baião e Marco de Canaveses; Um espaço ímpar no que à conservação da biodiversidade da região do Douro-Litoral diz respeito; Um maciço granítico de relevos moderadamente pronunciados, adstrito ao sistema montanhoso Marão/Alvão; Um mosaico gradativo e diversificado de ambientes naturais, onde áreas cultivadas e moderadamente intervencionadas pelo Homem alternam com vastas zonas selvagens de habitat natural ou semi-natural; é o último bastião selvagem do distrito do Porto.”

 

Não muito acidentada, estendendo-se por longos planaltos, a Aboboreira favoreceu, por isso, a ocupação do seu território. De facto, o povoamento, de tipo concentrado, fez-se desde longa data, tanto nos vales como nas zonas mais altas onde, todavia, as condições para a sobrevivência humana são menos favoráveis, quer pela agressividade dos Invernos e dos ventos frios, constantes, que sopram do Marão, quer pelas dificuldades de acesso e de subsistência.

A maior parte do território da serra é coberto por vegetação rasteira (tojo, urze, giesta...), apresentando na periferia importantes conjuntos arbóreos de espécies nativas (carvalhos e castanheiros...) ou de introdução recente, como o pinheiro bravo ou o eucalipto.
Este tipo de vegetação alberga uma fauna de pequeno porte (aves de rapina, anfíbios, répteis, aves migradoras e mamíferos como o lobo, javali, raposa, coelho, doninha, fuinha, gato selvagem e lontra), para além de rebanhos colectivos de cabras e ovelhas e de gado bovino que, diariamente, procuram a sua alimentação nas planuras dos montes.

A agricultura e a pastorícia constituem a base das economias locais. A primeira tem associados dois sistemas dominantes, conformes ao tipo de paisagem: um de minifúndio, de meia encosta, chamado várzea, de policultura intensiva, em que o vinho verde, o milho, as hortícolas e as fruteiras são as principais culturas; outro, de montanha, em que a criação de gado em regime extensivo e a exploração florestal predominam.

Nos povoados serranos as parcelas cultivadas dispõem-se nos pequenos vales que acompanham as linhas de água. Junto a cada aglomerado avista-se uma área de pastagens e, no limite destas, é costume encontrarem-se pequenos bosques com espécies nativas.

Neste processo emerge, na Aboboreira, ao lado do homem, como força de tracção, o bovino autóctone da raça arouquesa, que faz o trabalho e produz vitelos de qualidade criados em zonas de pastagem ou áreas de baldio. Serra com riqueza florística, a apicultura é uma actividade em expansão na Aboboreira, onde se produz mel de óptimas características organalépticas.

Serão estas razões suficientes para haver uma real preocupação pela nossa serra?

 

Nos últimos tempos, temos assistido a uma aparatosa campanha de apoio, vinda de inúmeras identidades, com o intuito de conceder ajuda à Serra da Aboboreira. Posso afirmar que finalmente despertou a vontade de se debater sobre a necessidade de dotar esta área montanhosa de um estatuto de protecção legal que permita a conjugação da crescente actividade humana na área com a conservação e salvaguarda do seu património natural. Sim, digo “finalmente”, pois tentativas não faltaram, vontade em conseguir tal objectivo é que nunca surgiu. Os Planos Directores Municipais (PDM) das três autarquias em questão, expressaram, e continuam a expressar a intenção de “dotar a área em questão de um estatuto particular”, seja como uma “Unidade Operativa de Planeamento e Gestão da Serra da Aboboreira”, como refere o PDM de Amarante, seja como “Área de Património Natural”, como preconizam os PDM de Baião e Marco de Canaveses, mas a verdade, porém, é que a inclusão da serra na rede nacional de áreas protegidas acabou por nunca se verificar, de resto tal como a sua inserção na Rede Natura, ao abrigo da Directiva Habitats. Nem mesmo os sucessivos atropelos e atentados ambientais de que serra tem sido vítima ao longo das últimas décadas, e que levaram, inclusive, algumas organizações de defesa do ambiente a intervir e actuar no terreno, no sentido de evitar a degradação da serra, fizeram acordar as populações que se ligam a este contraforte granítico para os perigos que este corre.

Evidentemente que o que nos importa agora, e uma vez que até ao momento pouco ou nada se fez pela Aboboreira, é de facto, apoiar esta causa. Apoiar quem luta pela sobrevivência, pela defesa, quem luta pelos valores patrimoniais, pela preservação, quem luta pela sustentabilidade desta Serra. A Câmara Municipal de Baião, a Câmara Municipal de Marco de Canaveses, a Câmara Municipal de Amarante, a Associação Florestal de Entre Douro e Tâmega e a Associação dos Amigos do Rio Ovelha, são algumas das identidades que neste momento trabalham para que a Serra da Aboboreira se torne numa área protegida.

Eu pessoalmente espero que esta não seja mais uma de tantas outras tentativas, mas sim, que seja, um novo ciclo para a Serra da Aboboreira.

 

 

Por Soalhães…

 

Em Novembro de 2006 foi publicado um artigo num jornal local em que eram referidos alguns dos planos da Junta de Freguesia de Soalhães para dinamizar a parte da Serra da Aboboreira pertencente à freguesia.

Pois bem… A primeira atitude deste executivo foi, ou pelo menos julgo ter sido, o pedido de colaboração da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), mais propriamente na área da Arquitectura Paisagista, como método de orientação na elaboração de um projecto de intervenção na área rural que não prejudique quer a paisagem, quer o património cultural daquela parte da serra. Na minha opinião tratou-se de uma excelente opção por parte dos responsáveis, uma vez que paisagem da Serra da Aboboreira não surge espontaneamente equilibrada, mas constitui um espaço onde um somatório de projectos sectoriais pode conduzir à exploração exaustiva dos recursos naturais, à construção indiscriminada de conjuntos edificados e à implantação consequente das infra-estruturas necessárias. Ao arquitecto paisagista, compete o papel de criar, nesta área rural que é um suporte de comunidades humanas, a melhor forma de considerar e desenvolver os seus valores culturais e recursos biofísicos. Para isso, há que considerar, no plano, a síntese dos pontos de vista culturais, económicos, técnicos e biológicos. O arquitecto paisagista, tendo “o Homem como centro de todas as mudanças”, terá de ordenar as diferentes formas de vida autónomas, na sua essência biológica, sujeitas a uma evolução pré concebida e cíclica no tempo.

Ainda no mesmo artigo havia uma referência a 16 moinhos presentes nessa área rural, que a Junta de Freguesia de Soalhães esperava conseguir recuperar de modo a evocar o turismo ao local. Em relação a este tema, apenas espero vivamente que isso seja alcançado, pois devem-se ter em conta as dificuldades que surgirão no processo de apropriação e autorização.

 

Para terminar, espero que a Junta de Freguesia de Soalhães não se deixe desvigorar no que diz respeito a este projecto, pois a simples possibilidade de colocar a área rural Serra da Aboboreira/Soalhães num roteiro de turismo ou ecoturismo, já faz deste tema uma parada a alcançar.

Aproveito ainda para deixar no ar uma sugestão a este executivo. Penso que a população de Soalhães gostaria de ver um apoio mais forte da Junta de Freguesia em relação à campanha de apoio para dar à Serra da Aboboreira um estatuto de protecção legal. Não sei se já o estão a fazer, e esse pode ser o problema, pois existe um elevado número de pessoas que tem um acesso muito mais reduzido a informação do que a minha pessoa. Deduzo pois, que se eu não tenho conhecimento desse apoio… Eles, muito menos. (digo eu!!!).

 

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