“Repartida
entre os municípios de Amarante, Baião e Marco de Canaveses;
Um espaço ímpar no que à conservação da biodiversidade da
região do Douro-Litoral diz respeito; Um maciço granítico de
relevos moderadamente pronunciados, adstrito ao sistema
montanhoso Marão/Alvão; Um mosaico gradativo e diversificado
de ambientes naturais, onde áreas cultivadas e moderadamente
intervencionadas pelo Homem alternam com vastas zonas
selvagens de habitat natural ou semi-natural; é o último
bastião selvagem do distrito do Porto.”
Não muito
acidentada, estendendo-se por longos planaltos, a Aboboreira
favoreceu, por isso, a ocupação do seu território. De facto,
o povoamento, de tipo concentrado, fez-se desde longa data,
tanto nos vales como nas zonas mais altas onde, todavia, as
condições para a sobrevivência humana são menos favoráveis,
quer pela agressividade dos Invernos e dos ventos frios,
constantes, que sopram do Marão, quer pelas dificuldades de
acesso e de subsistência.
A maior
parte do território da serra é coberto por vegetação
rasteira (tojo, urze, giesta...), apresentando na periferia
importantes conjuntos arbóreos de espécies nativas
(carvalhos e castanheiros...) ou de introdução recente, como
o pinheiro bravo ou o eucalipto.
Este tipo de vegetação alberga uma fauna de pequeno porte
(aves de rapina, anfíbios, répteis, aves migradoras e
mamíferos como o lobo, javali, raposa, coelho, doninha,
fuinha, gato selvagem e lontra), para além de rebanhos
colectivos de cabras e ovelhas e de gado bovino que,
diariamente, procuram a sua alimentação nas planuras dos
montes.
A
agricultura e a pastorícia constituem a base das economias
locais. A primeira tem associados dois sistemas dominantes,
conformes ao tipo de paisagem: um de minifúndio, de meia
encosta, chamado várzea, de policultura intensiva, em que o
vinho verde, o milho, as hortícolas e as fruteiras são as
principais culturas; outro, de montanha, em que a criação de
gado em regime extensivo e a exploração florestal
predominam.
Nos
povoados serranos as parcelas cultivadas dispõem-se nos
pequenos vales que acompanham as linhas de água. Junto a
cada aglomerado avista-se uma área de pastagens e, no limite
destas, é costume encontrarem-se pequenos bosques com
espécies nativas.
Neste
processo emerge, na Aboboreira, ao lado do homem, como força
de tracção, o bovino autóctone da raça arouquesa, que faz o
trabalho e produz vitelos de qualidade criados em zonas de
pastagem ou áreas de baldio. Serra com riqueza florística, a
apicultura é uma actividade em expansão na Aboboreira, onde
se produz mel de óptimas características organalépticas.
Serão estas
razões suficientes para haver uma real preocupação pela
nossa serra?
Nos últimos
tempos, temos assistido a uma aparatosa campanha de apoio,
vinda de inúmeras identidades, com o intuito de conceder
ajuda à Serra da Aboboreira. Posso afirmar que finalmente
despertou a vontade de se debater sobre a necessidade de
dotar esta área montanhosa de um estatuto de protecção legal
que permita a conjugação da crescente actividade humana na
área com a conservação e salvaguarda do seu património
natural. Sim, digo “finalmente”, pois tentativas não
faltaram, vontade em conseguir tal objectivo é que nunca
surgiu. Os Planos Directores Municipais (PDM) das três
autarquias em questão, expressaram, e continuam a expressar
a intenção de “dotar a área em questão de um estatuto
particular”, seja como uma “Unidade Operativa de Planeamento
e Gestão da Serra da Aboboreira”, como refere o PDM de
Amarante, seja como “Área de Património Natural”, como
preconizam os PDM de Baião e Marco de Canaveses, mas a
verdade, porém, é que a inclusão da serra na rede nacional
de áreas protegidas acabou por nunca se verificar, de resto
tal como a sua inserção na Rede Natura, ao abrigo da
Directiva Habitats. Nem mesmo os sucessivos atropelos e
atentados ambientais de que serra tem sido vítima ao longo
das últimas décadas, e que levaram, inclusive, algumas
organizações de defesa do ambiente a intervir e actuar no
terreno, no sentido de evitar a degradação da serra, fizeram
acordar as populações que se ligam a este contraforte
granítico para os perigos que este corre.
Evidentemente que o que nos importa agora, e uma vez que até
ao momento pouco ou nada se fez pela Aboboreira, é de facto,
apoiar esta causa. Apoiar quem luta pela sobrevivência, pela
defesa, quem luta pelos valores patrimoniais, pela
preservação, quem luta pela sustentabilidade desta Serra. A
Câmara Municipal de Baião, a Câmara Municipal de Marco de
Canaveses, a Câmara Municipal de Amarante, a Associação
Florestal de Entre Douro e Tâmega e a Associação dos Amigos
do Rio Ovelha, são algumas das identidades que neste momento
trabalham para que a Serra da Aboboreira se torne numa área
protegida.
Eu
pessoalmente espero que esta não seja mais uma de tantas
outras tentativas, mas sim, que seja, um novo ciclo para a
Serra da Aboboreira.
Por Soalhães…
Em Novembro
de 2006 foi publicado um artigo num jornal local em que eram
referidos alguns dos planos da Junta de Freguesia de
Soalhães para dinamizar a parte da Serra da Aboboreira
pertencente à freguesia.
Pois bem… A
primeira atitude deste executivo foi, ou pelo menos julgo
ter sido, o pedido de colaboração da Faculdade de
Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP), mais
propriamente na área da Arquitectura Paisagista, como método
de orientação na elaboração de um projecto de intervenção na
área rural que não prejudique quer a paisagem, quer o
património cultural daquela parte da serra. Na minha opinião
tratou-se de uma excelente opção por parte dos responsáveis,
uma vez que paisagem da Serra da Aboboreira não surge
espontaneamente equilibrada, mas constitui um espaço onde um
somatório de projectos sectoriais pode conduzir à exploração
exaustiva dos recursos naturais, à construção indiscriminada
de conjuntos edificados e à implantação consequente das
infra-estruturas necessárias. Ao arquitecto paisagista,
compete o papel de criar, nesta área rural que é um suporte
de comunidades humanas, a melhor forma de considerar e
desenvolver os seus valores culturais e recursos biofísicos.
Para isso, há que considerar, no plano, a síntese dos pontos
de vista culturais, económicos, técnicos e biológicos. O
arquitecto paisagista, tendo “o Homem como centro de todas
as mudanças”, terá de ordenar as diferentes formas de vida
autónomas, na sua essência biológica, sujeitas a uma
evolução pré concebida e cíclica no tempo.
Ainda no
mesmo artigo havia uma referência a 16 moinhos presentes
nessa área rural, que a Junta de Freguesia de Soalhães
esperava conseguir recuperar de modo a evocar o turismo ao
local. Em relação a este tema, apenas espero vivamente que
isso seja alcançado, pois devem-se ter em conta as
dificuldades que surgirão no processo de apropriação e
autorização.
Para
terminar, espero que a Junta de Freguesia de Soalhães não se
deixe desvigorar no que diz respeito a este projecto, pois a
simples possibilidade de colocar a área rural Serra da
Aboboreira/Soalhães num roteiro de turismo ou ecoturismo, já
faz deste tema uma parada a alcançar.
Aproveito
ainda para deixar no ar uma sugestão a este executivo. Penso
que a população de Soalhães gostaria de ver um apoio mais
forte da Junta de Freguesia em relação à campanha de apoio
para dar à Serra da Aboboreira um estatuto de protecção
legal. Não sei se já o estão a fazer, e esse pode ser o
problema, pois existe um elevado número de pessoas que tem
um acesso muito mais reduzido a informação do que a minha
pessoa. Deduzo pois, que se eu não tenho conhecimento desse
apoio… Eles, muito menos. (digo eu!!!).