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Desafios

Publicado em 13-03-06

 

Artigo de opinião por

Dr. Coutinho Ribeiro, Advogado

 

Convidaram-me a participar e eu aqui estou, com gosto, a falar sobre Soalhães, o sítio onde nasci, onde vou visitar a família menos do que devia e onde sempre votei e continuo a votar. Primeiro reparo: Soalhães tem andado pouco no tempo. É o que sinto de cada vez que volto.

Soalhães é a maior freguesia do concelho e a segunda mais populosa. Porque é terra grande e dispersa, não é fácil geri-la. No princípio do poder local, foi preciso fazer o que era essencial: rasgar estradas, mesmo que não fossem boas estradas, construir fontanários, arrancar as populções mais distantes do verdadeiro exílio em que viviam. E, a partir daí, pouco se andou.

Olho para Alpendorada. A freguesia mais populosa. Mas não apenas a mais populosa. É a mais pujante. É uma vila é capaz de rivalizar com o Marco-cidade. É uma terra com vida própria. Com animação. Com estrutura económica. Com um clube desportivo forte. Com equipamentos sociais. Com capacidade de influência política. Olho para Soalhães. Em Soalhães falta quase tudo. E sobram muitas coisas.

Sobra um enorme problema ambiental, sobretudo o que é provocado pelo matadouros. Sobra um problema de saúde pública, provocado pelo abate e comércio ilegal de carnes. E sobra uma enorme capacidade para reivindicar, para ser ousado na defesa dos direitos que são de todos. Definitivamente: os problemas ambientais e de saúde pública têm que ser encarados de frente. Doa a quem doer. Por muito boas pessoas que sejam as pessoas que os provocam. Enquanto isso não acontecer, Soalhães será conhecido não só pela "Terra do Mata e Queima" mas, também, pelo sítio onde todas as coisa duvidosas acontecem. E acontecem, todos sabemos que sim, mesmo quando assobiamos para o lado...

Este é um problema que perdurou no tempo. E há outros. Também graves. E por quê? Porque os responsáveis políticos locais, ou ficaram ancorados a resolver o que era básico, ou não tiveram um golpe ambição. Não conseguiram ir além do que era acessório. E Soalhães é demasiado grande para tão pequenas ambições.

Talvez por isso, Soalhães, que deu boas pessoas ao mundo, não ancorou muitas. Poucos são aqueles que singraram na vida fora de Soalhães que têm, hoje, uma ligação à terra. Porque não se sentem motivados, mas também porque certamente ninguém os motivou.

Para quem não sabe, eu que até sou amigo do José Barão e sobretudo do José Arouca, tive o cuidado de lhes dizer ao fim da tarde do dia das eleições autárquicas que eles iam perder, porque não mereciam ganhá-las. Não sei se a Cristina Vieira mereceu ganhar - é cedo para avaliar -, mas sempre significava uma lufada de ar fresco e uma esperança, sobretudo porque vem de outra geração - uma geração de que espero mais do que da minha que, reconheça-se, não é grande coisa.

O que espero dela? A tal ambição. E que seja capaz de saber ser mais presidente da Junta do que militante socialista, e que saiba perceber que as disputas eleitorais, as mágoas e os excessos são coisas que se morrem ali. No calor da luta. Foi por isso que, no Natal, na festa da Casa do Povo, gostei de os ver a todos por ali. E eu gostei de lá estar.

Creio - sem falsa modéstia - que a minha candidatura à Câmara do Marco em 2001 valeu até por esse acto de pedagogia. Excepto Ferreira Torres, não coleccionei nenhum inimigo nas hostes das outras candidaturas. Pelo contrário. Cimentei amizades antigas e ganhei muitas outras. Nem por um momento ficou azedume por ver amigos empenhados noutras candidaturas. E eles sabem que é assim, não é, Norberto?. Eu sempre entendi que há mais vida para além da política. Muito mais vida...

Por isso, cara Cristina, o seu primeiro passo é reconciliar Soalhães. Reconhecer que todos os que estão para trás, uns mais, outros menos, fizeram o que podiam ou pelo menos o que sabiam. E reconhecer que todos são importantes para tirar Soalhães do marasmo. A sua tarefa é difícil. Há muito tempo que precisa de ser recuperado. E há uma conjuntura económica e autárquica difícil. Mas esse é um desafio motivante, não acha?

 

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