
Serra da Aboboreira - o último bastião
selvagem do distrito do Porto...
A Serra da Aboboreira, noroeste do
distrito do Porto, é uma área ecologicamente muito interessante e de
elevado valor de conservação que vale bem a pena conhecer. Apesar
disso, não está incluída na rede nacional de áreas protegidas nem na
Rede Natura.
Localizada no extremo noroeste do
distrito do Porto e um espaço ímpar no que à conservação da
biodiversidade da região do Douro-Litoral diz respeito, a Serra da
Aboboreira constitui um maciço granítico de relevos moderadamente
pronunciados, adstrito ao sistema montanhoso Marão/Alvão que, apesar
da sua imensa riqueza e diversidade natural, permanece à margem da
estratégia nacional de conservação da natureza.
Prolongamento
sudoeste do sistema Galaico-Duriense a norte do rio Douro e
contraforte granítico implantado no extremo ocidental do maciço
montanhoso Marão/Alvão, muito próximo da área de transição entre
duas regiões fitoclimáticas europeias – a Eurosiberiana, de cariz
Atlântico, marcada por temperaturas amenas, fracas amplitudes
térmicas e elevados índices de humidade atmosférica, situação bem
patente nas regiões do noroeste português (Minho e Douro Litoral); e
a Mediterrânica, vincadamente continental, de feição mais austera,
com longos estios, temperaturas médias elevadas e grande secura,
como ocorre em grande parte da região Transmontana – a serra da
Aboboreira (965 m) é um maciço orográfico antigo, pouco extenso, com
uma área aproximada de 100 km², de configuração
subtrapezoidal e orientação nordeste-sudeste, delimitado por vales
de vertentes abruptas, por vezes apertados e íngremes onde correm
diversos cursos de água afluentes dos rios Tâmega e Douro (o Ovelha,
a noroeste; o Ovil, a sul e sudeste; o Fornelo a nordeste; e o
próprio Douro a sudoeste).

Fruto das alternâncias do relevo e
das variações microclimáticas acentuadas, quer pela relativa
proximidade ao Atlântico, situação que confere a este relevo um
acentuado cariz oceânico, com a ocorrência de temperaturas amenas e
precipitações abundantes (1500 e 2000 mm anuais), quer pela
influência da interioridade continental, da qual decorrem, verões em
geral relativamente secos, o que traduz uma influência
(sub)mediterrânica, a Aboboreira apresenta um mosaico gradativo e
diversificado de ambientes naturais, onde áreas cultivadas e
moderadamente intervencionadas pelo Homem alternam com vastas zonas
selvagens de habitat natural ou seminatural. Com efeito,
resultado da milenar acção humana – o povoamento da serra da
Aboboreira remonta ao período de 5000-4500 a. C., altura em que
terão surgido os primitivos povoados em plataformas próximas de
linhas de água bem como as primeiras estruturas funerárias (antas ou
dólmenes) que haveriam de dar corpo, entre o início do IV milénio
a.C. e os meados do II milénio a.C., a uma vasta necrópole
megalítica, das maiores que actualmente se conhecem em território
português, com cerca de 40 tumulus identificados – e das
peculiares condições geoclimáticas, a Aboboreira apresenta uma
assinalável diversidade e diferenciação na sua cobertura vegetal,
designadamente nos andares superiores, onde subsistem as relíquias
botânicas deste espaço montanhoso. Assim, para além de algumas
espécies florísticas que se destacam pela sua raridade ou carácter
endémico, como acontece com a Scilla ramburei subsp.
Ramburei, uma planta rara em Portugal, comum em urzais e
afloramentos rochosos sombrios; ou a Centaurea hermini subsp.
Lusitana, uma planta frequente nas clareiras de matos secos
em zonas de solos pobres e que constitui um endemismo português,
listado no Anexo II da Directiva Habitats (92/43/CEE), o realce vai
para as manchas remanescentes de carvalhais galaico-portugueses,
bosques climatófilos de carvalho-alvarinho (Quercus robur),
os últimos do distrito do Porto e dos melhores conservados do maciço
Marão/Alvão/Aboboreira, que sobrevivem em vales abrigados entre os
600 e 750 metros de altitude. Estes bosques de carvalho-alvarinho da
serra da Aboboreira que, por vezes, surgem em associação com outras
Quercíneas como o sobreiro (Quercus suber) e o carvalho
negral (Quercus pyrenaica), sobretudo nas áreas de solos mais
secos, ou nas encostas mais soalheiras, enquadram-se, do ponto de
vista fitossociológico, na associação Rusco aculeati-Quercetum
roboris e albergam inúmeras espécies de plantas arbustivas e
herbáceas da flora nemoral, como o azevinho (Ilex
aquifolium), a aveleira (Corylus avellana), o catapereiro
(Pyrus piraster), a gilbardeira (Ruscus aculeatus) e a
saxífraga (Saxifraga spathularis).

Correspondendo à diversidade de
biótopos naturais, a serra da Aboboreira alberga igualmente um
importante e rico património faunístico, sendo de destacar, no que
diz respeito aos invertebrados, várias espécies de Lepidópteros
(borboletas), algumas das quais raras e ameaçadas a nível europeu
como a Callophrys Avis, a Melitaea trivia e a
Coenonympha iphioides, para além de várias espécies de
Coleópteros (escaravelhos), entre os quais o Lucanus cervus,
incluída no Anexo II da Directiva Habitats. Contudo, para além dos
invertebrados, a Aboboreira alberga ainda cerca de 68 espécies de
vertebrados terrestres, não incluindo as aves. De entre estes,
realce para alguns endemismos com elevado interesse
conservacionista, como é o caso da salamandra-lusitânica
(Chioglossa lusitanica), do tritão-de-ventre-laranja
(Triturus boscai), da rã-ibérica (Rana ibérica) e do
lagarto-de-água (Lacerta schreiberi), no caso da
herpetofauna; e da toupeira-de-água (Galemys pyrenaicus) e do
lobo-ibérico (Canis lupus signatus), um carnívoro fortemente
ameaçado em toda a sua área de distribuição e cuja conservação em
Portugal é tida como prioritária, no caso dos mamíferos.

No que se refere às aves, das
quais já foram identificadas cerca de 110 espécies, aproximadamente
um terço do total das espécies que se podem encontrar em Portugal
Continental, a serra da Aboboreira é especialmente importante como
rota da migração outonal, designadamente de rapinas e passeriformes,
embora apresente um conjunto de habitats que a convertem,
igualmente, num espaço relevante para as espécies tidas como
nidificantes, situação, de resto, comprovada pelo facto do conjunto
dessas aves corresponder a 37% do total das espécies nidificantes
descritas para o território continental e a 24% das aves mencionadas
no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, destacando-se,
de entre estas, o tartaranhão-caçador (Circus pygargus), a
águia-cobreira (Circaetus gallicus), o noitibó-europeu
(Caprimulgus europaeus) e o torcicolo (Jynx
torquilla).

O Lobo-Ibérico na Serra da
Aboboreira:
Perseguido em Portugal quase até ao seu
completo extermínio na década de 1980, o
Lobo-ibérico, uma
subespécie do lobo-cinzento, endémica da Península Ibérica, hoje
classificada como uma espécie “Em Perigo”, encontra-se totalmente
protegido por legislação nacional (Lei de Protecção do Lobo Ibérico;
Lei nº 90/88 de 13 de Agosto e Decreto-Lei nº 139/90 de 27 de Abril)
e internacional (Anexo II da Convenção de Berna; Anexo II e IV da
Directiva Habitats). Actualmente, o lobo subsiste apenas nas
serranias mais isoladas do norte e centro de Portugal, estimando-se
que a população ronde os 300 animais, repartidos por dois núcleos
distintos: um, mais numeroso e estável, localizado a norte do rio
Douro, distribuído pelas regiões montanhosas mais remotas do
noroeste e nordeste, e um outro, localizado a sul do rio Douro,
bastante reduzido (20 a 30 animais), ocupando as áreas de montanha
fronteiras ao vale do Douro. A situação do lobo na serra da
Aboboreira é relativamente mal conhecida. A ausência de estudos
sistemáticos (data de 2002 o início dos trabalhos de campo conjuntos
ICN/Grupo Lobo para a concretização do censo nacional do lobo,
trabalhos esses que se prolongaram até final de 2003) não permite
ainda aquilatar da real situação da população lupina nesta área
montanhosa. Porém, tendo em conta informações e dados recolhidos,
quer durante o censo nacional, quer no âmbito de um projecto de
investigação (Projecto LOBO) levado a cabo pelo Clube de Ambiente e
Exploração da Natureza da Escola EB 2,3 de Vila Caiz (Amarante), ao
longo do triénio 2001-2003, crê-se tratar-se de um núcleo lupino
pouco numeroso e instável em termos reprodutivos (as últimas
referências fidedignas que apontam a possibilidade de reprodução na
alcateia da Aboboreira datam de 2001) e altamente ameaçado, uma vez
que se trata de uma população marginal, localizada no extremo sul da
área de distribuição da espécie a norte do rio Douro, separada pelo
IP4 dos restantes núcleos lupinos do sistema montanhoso Marão/Alvão
e, possivelmente, sem qualquer contacto com a remanescente população
localizada a sul do Douro. A pressão humana, a escassez de presas
naturais, a diminuição dos efectivos pecuários, a destruição do habitat, mas sobretudo a ausência de uma estratégia
concertada de conservação do lobo para esta região, concorrem para
esta situação crítica em que se encontram os últimos lobos do
distrito do Porto.
Uma Serra à espera de
protecção:
Desde há muito que a serra da Aboboreira é alvo
de um aceso debate sobre a necessidade de dotar esta área montanhosa
de um estatuto de protecção legal que permita a conjugação da
crescente actividade humana na área com a conservação e salvaguarda
do seu património natural. Repartida entre os municípios de
Amarante, Baião e Marco de Canaveses, a serra tem sido vítima, ao
longo das últimas décadas, de atropelos e atentados ambientais que
levaram, inclusive, algumas organizações de defesa do ambiente a
intervir e actuar no terreno, no sentido de obstar à degradação da
serra, como aconteceu com a Quercus, que durante a década de 80 se
opôs, com o apoio das populações locais, à massiva plantação de
eucaliptos na serra por parte da Soporcel, exigindo junto das
entidades competentes, à época, a elevação da serra a Parque
Natural.
A verdade, porém, é que a inclusão da serra na rede
nacional de áreas protegidas acabou por nunca se verificar, de resto
tal como a sua inserção na Rede Natura, ao abrigo da Directiva
Habitats. Com efeito, e pese embora uma proposta consistente nesse
sentido, a alegação de que os habitats representados na Aboboreira
já se encontrariam suficientemente abrangidos nos restantes sítios
propostos para Portugal, acabou por ditar a sua exclusão da lista
final. Desde então, se exceptuarmos o facto de os Planos Directores
Municipais das três autarquias em questão, expressarem a intenção de
“dotar a área em questão de um estatuto particular”, seja
como uma “Unidade Operativa de Planeamento e Gestão da Serra da
Aboboreira”, como refere o PDM de Amarante, seja como “Área
de Património Natural”, como preconizam os PDM de Baião e Marco
de Canaveses, e o facto do Partido Socialista, através do seu grupo
parlamentar, ter entregue na Assembleia da República uma proposta de
Projecto de Lei para a criação da Área Protegida das Serras de
Aboboreira e Castelo (Projecto de Lei nº 138/VIII), subordinada à
noção de que a serra é (…) detentora de um conjunto de valores
humanos, naturais e construídos integrados num ecossistema
sensível (…), cuja efectivação levaria à classificação desta
região montanhosa como Área de Paisagem Protegida, designadamente:
Parque Regional da Serra da Aboboreira, pouco ou nada mudou na forma
como as autoridades competentes continuam a encarar a conservação
desta que é a última área montanhosa selvagem da região do
Porto.
Manuel Nunes (texto) e Jorge Nunes
(fotografia) - Naturlink
